Porque o futuro da agricultura depende da continuidade da vida sob os nossos pés.
(Após sete artigos dedicados às ligações biológicas que moldam os sistemas agrícolas, este artigo, publicado por ocasião do Dia Mundial da Conservação do Solo, reúne investigadores, agrónomos e especialistas de campo para refletir sobre os processos vivos que sustentam o funcionamento do solo e a resiliência da agricultura.)
A maior parte do que determina o sucesso da agricultura não está à vista.
Quando caminhamos num campo, a nossa atenção dirige-se naturalmente para aquilo que conseguimos observar: o vigor das culturas, as condições meteorológicas, a cor das folhas ou a qualidade da colheita. Durante décadas, o progresso agrícola foi avaliado sobretudo pelo que acontece acima do solo: maiores produtividades, melhoramento genético, fertilizantes mais eficientes e uma gestão das culturas cada vez mais precisa.
No entanto, cada um destes avanços depende de um sistema igualmente complexo que existe sob os nossos pés, onde milhares de milhões de microrganismos interagem com as raízes das plantas, fungos, insetos e inúmeros outros organismos, formando uma rede biológica que regula a ciclagem de nutrientes, a dinâmica da água, a sanidade das plantas e a capacidade das culturas para responder a situações de stress.
Nicolas Body, responsável técnico da Alltech Crop Science Europe, ilustra este conceito através de uma comparação simples: tal como os seres humanos dependem de um microbioma intestinal saudável para transformar os alimentos em nutrientes utilizáveis, também as plantas dependem de uma comunidade viva, igualmente complexa, presente no solo.
Nas suas próprias palavras: “As plantas estão vivas quando o solo está vivo.”
Esta observação, aparentemente simples, traduz uma mudança profunda na forma como a ciência agrícola compreende o solo. Durante décadas, este foi entendido principalmente através das suas propriedades físico-químicas. A textura, o pH, a estrutura, a matéria orgânica e a disponibilidade de nutrientes continuam a ser indicadores fundamentais da sua qualidade; no entanto, a investigação demonstra cada vez mais que estas características contam apenas uma parte da história.
Investigadores, especialistas em ciência do solo, agrónomos e técnicos agrícolas podem abordar o solo a partir de perspetivas diferentes, mas convergem numa mesma conclusão: o futuro da agricultura não depende apenas da melhoria isolada dos diferentes componentes da produção, mas da compreensão das relações biológicas que os ligam entre si.
O foco deixa de estar no solo enquanto recurso e passa a centrar-se no solo enquanto sistema vivo.
Mais do que a soma das suas partes
Talvez o maior equívoco sobre o solo não seja o facto de ter sido negligenciado, mas sim o de ter sido, demasiadas vezes, compreendido de forma fragmentada.
A agricultura moderna tornou-se extremamente competente na medição dos seus diferentes componentes. Hoje é possível analisar, com grande precisão, as concentrações de nutrientes, o pH, a matéria orgânica, os agentes patogénicos ou a disponibilidade de água. Cada um destes parâmetros fornece informação valiosa. Contudo, nenhum explica, por si só, porque razão um solo produz de forma consistente culturas saudáveis e resilientes, enquanto outro, aparentemente semelhante, apresenta um desempenho muito diferente.
O Professor Carlos García-Izquierdo, investigador do CEBAS-CSIC (Múrcia, Espanha), dedica-se há décadas ao estudo do solo enquanto ecossistema vivo, e não apenas como suporte para o crescimento das plantas. Na sua perspetiva, o solo é “o cenário de inúmeros processos biológicos que sustentam a vida, onde microrganismos, matéria orgânica, raízes e fauna interagem continuamente para manter funções ecológicas essenciais.”
Esta perspetiva alarga também a nossa compreensão da produtividade agrícola. Os nutrientes são transformados através da atividade biológica, a água é regulada pelas interações entre a estrutura do solo e a matéria orgânica, e a sanidade das plantas depende tanto da existência de comunidades biológicas funcionais como da ausência de agentes patogénicos.
O Professor Carlos Alexandre Costa Crusciol, da Universidade Estadual Paulista (UNESP, São Paulo, Brasil), descreve o solo como um ecossistema dinâmico onde os microrganismos, a fauna e a matéria orgânica regulam a ciclagem de nutrientes, a estrutura do solo e a dinâmica da água. A biodiversidade constitui, assim, um dos mecanismos fundamentais através dos quais os sistemas agrícolas funcionam.
Vista desta forma, a biologia não substitui a química nem a física. Liga-as.
Apesar dos rápidos avanços da microbiologia do solo, grande parte desta atividade biológica continua a ser subvalorizada na prática agrícola. Como observa o Professor Crusciol, “o papel funcional das comunidades microbianas continua a ser menos visível na tomada de decisões agrícolas do que a sua importância justificaria.” Aquilo que não é facilmente observável tende, muitas vezes, a ser considerado secundário nas decisões de gestão.
A questão deixa, por isso, de ser apenas o potencial do solo e passa a centrar-se na capacidade dos seus processos biológicos para tornar essa fertilidade efetivamente disponível às plantas.
Como refere Rui Amante, strategic marketing manager da Alltech Crop Science Iberia, a nutrição das culturas depende tanto do fornecimento de nutrientes como da “manutenção da atividade biológica que os transforma em formas que as plantas conseguem utilizar de forma eficiente.”
Compreender o solo exige, assim, uma mudança fundamental de perspetiva: mais do que otimizar componentes individuais, a agricultura procura cada vez mais fortalecer as relações biológicas que permitem o funcionamento integrado de todo o sistema.
Uma conversa sob os nossos pés
Um dos maiores avanços da biologia do solo tem sido a crescente compreensão de que as plantas e os microrganismos não se limitam a coexistir. Comunicam continuamente entre si, influenciando a nutrição, o crescimento, a resiliência e a resposta ao stress ambiental.
A rizosfera, a estreita zona que envolve as raízes das plantas, é um dos ambientes biologicamente mais ativos do planeta. É aqui que as plantas libertam uma complexa mistura de hidratos de carbono, aminoácidos e outros compostos que atraem, estimulam ou inibem diferentes comunidades microbianas, moldando ativamente o ambiente biológico onde se desenvolvem.
Gabriel Tosetti, market development manager da Alltech Crop Science Brasil, resume esta mudança de paradigma com uma observação simples, mas poderosa: “As plantas não recebem passivamente o seu microbioma. Elas recrutam-no e modulam-no.”
Esta afirmação desafia uma ideia há muito estabelecida. A investigação demonstra, cada vez mais, que as plantas não se limitam a adaptar-se ao microbioma. Pelo contrário, moldam-no ativamente ao longo de todo o seu ciclo de vida.
Estas parcerias biológicas são igualmente dinâmicas. Com base na sua experiência na área de market development na Alletch Crop Science Brasil, Matheus Medeiros descreve este processo de ajustamento biológico como “as plantas ajustarem continuamente as suas interações com os microrganismos do solo em resposta à mudança das condições, tornando a rizosfera um ambiente de comunicação e adaptação constantes.”
A saúde das plantas deixa, assim, de ser determinada apenas pela genética ou pelas práticas de maneio da cultura. Depende também da qualidade das relações biológicas que se desenvolvem abaixo da superfície.
Um solo saudável não pode ser definido apenas pela disponibilidade de nutrientes ou pela pressão exercida pelos agentes patogénicos. É um solo onde as interações biológicas permanecem ativas, diversificadas e equilibradas.
O Professor García-Izquierdo aborda frequentemente a biodiversidade precisamente sob esta perspetiva. A sua importância reside menos no número de organismos presentes e mais nas funções ecológicas que desempenham em conjunto. Diferentes microrganismos contribuem para a ciclagem de nutrientes, a decomposição da matéria orgânica, a formação de agregados do solo e a supressão natural de doenças, criando um sistema muito mais capaz de se adaptar à mudança do que qualquer organismo conseguiria isoladamente.
O resultado é um sistema agrícola mais resiliente, não porque elimina a variabilidade, mas porque está melhor preparado para lhe responder.
Cada campo guarda memória
Se as relações biológicas estão em permanente evolução, são também continuamente moldadas pelas práticas de maneio.
Cada cultura instalada, mobilização do solo, incorporação de matéria orgânica e período em que o solo permanece descoberto influenciam as comunidades biológicas que vivem abaixo da superfície. Algumas alterações manifestam-se rapidamente. Outras só se tornam visíveis após anos de decisões repetidas.
Nesse sentido, o solo transporta uma memória biológica.
Tosetti resume esta ideia de forma particularmente expressiva ao afirmar que “o solo é um organismo com memória.”
As comunidades biológicas desenvolvem-se gradualmente, respondendo às condições criadas ao longo de sucessivas campanhas agrícolas através de práticas como a rotação de culturas, a manutenção de uma cobertura permanente do solo, a diversificação dos sistemas radiculares e a incorporação regular de matéria orgânica.
Solos saudáveis não resultam de aplicações biológicas pontuais. Desenvolvem-se quando o maneio apoia, de forma consistente, os sistemas vivos que já existem no solo.
O trabalho do Professor García-Izquierdo aponta repetidamente para esta perspetiva de longo prazo. Reduzir a perturbação do solo, preservar a matéria orgânica e aumentar a diversidade vegetal não são objetivos independentes.
Em conjunto, sustentam a atividade biológica do solo.
Body chega a uma conclusão muito semelhante depois de anos de trabalho técnico com agricultores em toda a Europa. Solos saudáveis dependem de boas práticas agronómicas, e as tecnologias biológicas alcançam o seu maior potencial quando complementam essas práticas.
Quer seja analisado sob a perspetiva da investigação ecológica de longo prazo ou da agronomia aplicada, a conclusão é a mesma: solos saudáveis são o resultado de sistemas de maneio que reforçam, em vez de interromperem, as relações biológicas.
É essa continuidade das relações biológicas que permite ao solo manter as suas funções e adaptar-se às mudanças ao longo do tempo.
O Professor García-Izquierdo introduz ainda outro conceito que ilustra bem esta realidade: a redundância funcional. Em comunidades biológicas diversificadas, diferentes organismos podem desempenhar funções ecológicas semelhantes. Se determinadas condições ambientais reduzirem uma população, outras podem continuar a assegurar a ciclagem de nutrientes, a decomposição da matéria orgânica ou o suporte à saúde das plantas.
A resiliência, por isso, não consiste apenas na capacidade de resistir à mudança. É, acima de tudo, a capacidade de continuar a funcionar apesar dela.
Talvez seja precisamente por isso que a biodiversidade é tão importante. Não porque a diversidade seja um fim em si mesma, mas porque permite que os processos biológicos continuem a acontecer.
Continuidade
A ciência do solo tem vindo a revelar uma das suas lições mais importantes: Solos saudáveis não se definem apenas pelo que contêm, mas sobretudo pelo que continuam a fazer.
Continuam a ciclar nutrientes, a regular a água, a sustentar a biodiversidade, a suprimir doenças e a permitir que as culturas se adaptem às mudanças. Estas funções não são independentes entre si; cada uma depende de inúmeras interações biológicas que ocorrem continuamente sob a superfície.
Hoje, a questão já não passa apenas por proteger um recurso natural finito. Trata-se de salvaguardar os processos biológicos que tornam esse recurso produtivo, resiliente e capaz de sustentar as gerações futuras.
Os investigadores descrevem ecossistemas cuja estabilidade assenta na diversidade biológica e nas ligações funcionais entre os seus organismos. Os agrónomos analisam decisões de maneio com consequências que se prolongam no tempo. Os especialistas de campo observam as condições que permitem à vida recuperar, estabelecer-se e continuar a desempenhar as suas funções.
Perspetivas diferentes. Uma compreensão comum.
O solo forma-se ao longo de décadas e, muitas vezes, de séculos. As suas comunidades biológicas desenvolvem-se gradualmente através de incontáveis interações entre o clima, a vegetação, os microrganismos e a ação humana. Cada campanha agrícola acrescenta um novo capítulo a essa história, e cada decisão de maneio influencia aquilo que virá a seguir.
É por isso que o solo pode ser entendido como um património vivo.
Francisco Pérez Zunino, diretor técnico da Alltech Crop Science Iberia, resume esta responsabilidade numa única frase: “O solo não é uma herança que recebemos, mas um legado que devemos deixar aos nossos netos.”
Matheus Medeiros traduz a mesma responsabilidade numa pergunta: “Que tipo de solo queremos deixar aos nossos netos? Um solo rico, supressivo e produtivo ou um solo pobre e infértil?”
Em conjunto, estas duas reflexões apontam para a mesma direção.
O futuro da agricultura não será determinado apenas pelas tecnologias que desenvolvemos ou pelos fatores de produção que aplicamos. Dependerá também da nossa capacidade para compreender, proteger e fortalecer as relações biológicas que sempre sustentaram a vida sob os nossos pés.
Este artigo começou com uma observação simples: “As plantas estão vivas quando o solo está vivo.” Depois destas conversas, essa ideia ganha um significado ainda mais abrangente. Se a agricultura depende de solos vivos, então proteger esses solos significa garantir a continuidade dos processos biológicos que os mantêm vivos.
No fundo, conservar os nossos solos é garantir a continuidade dos processos vivos que tornam a agricultura possível.
Perdeu algum artigo da série Connected by Biology? Explore a coleção completa:
- Artigo 1 — A saúde do solo: a base invisível da biodiversidade
- Artigo 2 — A vida no solo: O papel do microbioma do solo nos sistemas agrícolas
- Artigo 3 — As ligações invisíveis entre solo, plantas e insetos
- Artigo 4 — Decisões locais, impactos duradouros: como a gestão do solo molda a biodiversidade?
- Artigo 5 — A resiliência começa no solo: Biodiversidade num clima em mudança
- Artigo 6 — Conhecimento e inovação: Trabalhar com a biologia, não contra ela
- Artigo 7 — Conservar o solo é conservar a vida: ciência, responsabilidade e o futuro da agricultura
