Prof. Ricardo Freixial,
Professor na Universidade de Évora e Agricultor
Eng. Rui Amante,
Alltech Crop Science
A Alltech Portugal agradece a colaboração do Prof. Ricardo Freixial na elaboração deste artigo.
É possível recuperar a fertilidade e a estrutura dos solos, de forma sustentada.
O problema:
Fazer e manter culturas num solo com o recurso a práticas desajustadas pode permitir riscos de degradação por erosão física e química, salinidade e contaminação entre outros, resultando na perda da fertilidade por intensificação pouco sustentada agronomicamente, excesso de pastoreio, incêndios ou práticas de queima de resíduos. Atualmente, o solo é um recurso natural ameaçado.
Segundo o International Soil Reference and Information Centre (ISRIC), o solo de cerca de 17% da superfície da terra tem sido fortemente degradado encontrando-se esta área ainda em crescimento.
A exploração excessiva, o uso de práticas inadequadas, o sobre pastoreio e a inexistência das necessárias práticas de compensação, resultaram no declínio acentuado de nutrientes, na erosão hídrica e eólica, na compactação e na salinização dos solos, ou seja, na degradação das suas características físicas, químicas e biológicas e consequente perda na produtividade das culturas.
Segundo o ISRIC, durante os últimos 40 anos, 30% dos solos destinados à agricultura (1,5 milhares de milhões de ha), foram abandonados devido à erosão e à sua degradação e serão perdidos para a agricultura anualmente cerca de 2 milhões de hectares entre outras causas devido à severa degradação dos solos. Ou seja, a humanidade degradou 25% da terra ocupada, e muito deste prejuízo foi causado durante os últimos 150 anos.
A taxa de erosão do solo mesmo quando é impercetível excede a sua taxa de renovação (0,5 cm em 100 anos). Em países temperados calcula-se que entre 10 a 20 vezes e nos países tropicais entre 20 e 40 vezes. Entretanto, serão necessários aproximadamente 500 anos para “refazer” 25 mm de solo perdido por erosão.
Assim, considerando 15 cm a profundidade mínima para um solo agrícola, o solo agrícola produtivo é um ecossistema não renovável ou apenas renovável a muito longo prazo e em perigo pois degrada-se a uma taxa muito maior que a sua capacidade de regeneração.
Perante a estimativa do Banco Mundial, a produção de cereais deverá aumentar em 50% (de 2,1 a 3 milhares de milhões de toneladas) e a produção de carne em 85% (para atingir 470 Mt), entre 2000 e 2030.
A agricultura de conservação permite fazer agricultura de uma forma agronómica, ambiental e economicamente sustentada, assegurando segurança alimentar e procurando manter ou melhorar a fertilidade do solo, de forma que as gerações futuras possam obter produtividades iguais ou superiores às que se obtinham no modo convencional, melhorando a sua qualidade de vida..
A solução:
O conceito de Agricultura de Conservação (AC) visa inverter o ciclo de degradação associado à instalação e manutenção de culturas no modo convencional com o recurso à mobilização do solo.
Tem como objetivo a recuperação da fertilidade do solo através da melhoria das suas características físicas (erosão e manutenção ou melhoria da estrutura), químicas (elevação do teor de matéria orgânica) e biológicas (criação e manutenção de condições favoráveis para os organismos do solo).
Pretende-se através da AC, a recuperação da fertilidade dos solos degradados, gerindo o agro-ecossistema de forma sustentada, aumentando a produtividade, conseguindo maior rentabilidade com segurança alimentar, preservando e fortalecendo os recursos naturais e o ambiente.
Para tal, adotam-se as práticas e princípios interrelacionados fundamentais para o sistema, como a Sementeira Direta (SD) na instalação de culturas anuais e a não mobilização na manutenção de culturas permanentes, resíduos à superfície e a rotação de culturas.
Sabe-se ainda que o sequestro de carbono pelos solos representa um componente importante no equilíbrio de carbono no ambiente. Em comparação com o sistema convencional de agricultura com mobilização do solo, a SD e a AC aumentam a biodiversidade e o sequestro de carbono e diminuem a emissão de CO₂ e de N₂O para a atmosfera.
Outro impacto importante da nova alternativa é o aumento na eficiência de utilização da água na agricultura, uma vez que existe um aumento da capacidade de retenção de água do solo, redução nas perdas por evaporação e diminuição da erosão.
Os benefícios:
Assim, em culturas permanentes, a manutenção de um coberto vegetal permanente na entrelinha, instalado e mantido com práticas de não mobilização do solo, para além das vantagens agronómicas, ambientais e económicas, é uma prática assente no consumo mínimo de combustíveis, devido à redução de operações de mobilização do solo.
Além disso, as áreas em SD não mobilizadas e em AC possuem uma maior resiliência e uma vulnerabilidade reduzida às alterações climáticas.
Possuem menor amplitude de temperaturas do solo, apresentando maior adaptação face aos efeitos das alterações climáticas.
Exemplos desses efeitos incluem:
- Tempestades mais intensas (menor erosão).
- Aumento das amplitudes térmicas diárias.
- Períodos mais graves de seca.
- Maior taxa de infiltração de água no solo e maior capacidade de armazenamento.
- Vantagens na maturação e produtividade das culturas.
